Ficheiro de citações bibliográficas sobre a obra de Fernando Pessoa

Vida

«O Campos whitmaniano cantou a vida por bebedeira. As suas sensações desenfreadas, a sua emotividade pânica jamais passaram da esfera da inteligência: «Orgia intelectual de sentir a vida!».Intelectual, apesar do rótulo de sensacionista, a poesia de Campos é-o tanto como a de Caeiro. Justifica-a o desejo de afogar o tédio, de suprimir pela embriaguês a dor de viver, «angústia no fundo de todos os prazeres», a «saciedade antecipada na asa de todas as chávenas» - expressões da «Passagem das Horas». «Vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir». Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos. Mas o tour de force malogrou-se: depois de 1916, Campos virá a ser o poeta do cansaço, da abulia, do vazio, inquieto e nauseado.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 67.

Ver Campos sensacionista

Viajar

*
«A partida, real ou metafórica, (tomar uma decisão qualquer é também partir), põe-nos o mistério frente a frente, injecta-nos "o medo ancestral" do desconhecido; o que fazemos é definitivo, irremediável, porque "nunca se volta", ao regressar seremos outros e outro o lugar donde partimos. Daí o desprezo, misturado de inveja, por aqueles que não experimentam isto, os bons burgueses embotados que "não sentem o que há de morte em toda a partida, / de mistério em toda a chegada, / de horrível em todo o novo...". A poesia da viagem transforma-se na grave poesia do cais, carregada de sonho e sentido. Campos prefere ficar no cais, vendo os paquetes que entram e saem do Tejo, meditando no "mistério alegre e triste de quem chega e parte". Campos prefere ficar no cais, [...] transpondo o cais em que está para a esfera dos símbolos, visionando um "Cais absoluto", fora do espaço e do tempo, donde viemos porventura quando nascemos, onde também haverá gente anónima que sofre o mistério de partir e de chegar. O símbolo é comum ao Pessoa ortónimo; também este fica para sempre num cais metafórico [...]
De novo o tédio envolve o poeta, crucificado na monotonia dum existir ocioso. O espectáculo da própria inércia, os sonhos malbaratados, a inconsequência de tudo fazem-no odiar-se a si próprio, ser grotesco, rei de opereta, «palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro...»»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 125-126.
* Almada Negreiros (gare marítima da Rocha do Conde de Óbidos).

Ultimatum

«A grande peça deste número único do Portugal Futurista, ao pé da qual tudo o resto parece esquálido e sem cor, incluindo as palavras provocantes de Almada, é o Ultimatum de Álvaro de Campos. Não é uma obra-prima. Este texto combativo é um texto extremamente anti-social, agressivo, quase monstruoso, com a sua patente falta de unidade de tom. Começa como um panfleto e acaba em profissão de fé. Abre com um ataque de cólera e fecha com um impulso de esperança fervorosa. Entre os dois, uma longa dissertação num estilo demonstrativo, didáctico, cheio de «primeiro» e «segundo», «alínea a» e «alínea b», raciocínios lógicos e fórmulas algébricas. Mas não há dúvida de que isso veio também espontaneamente; e o autor tinha as suas razões para não polir o texto. Pessoa é capaz de, sob o nome de Bernardo Soares, escrever uma prosa maravilhosamente harmoniosa, sem nada que fira ou que ranja; mas aqui põe Campos a escrever à machadada e à martelada. Faz dele um pensador brutal, desajeitado e surdo, que ele nunca foi antes e nunca mais voltará a ser a esse ponto: um atleta do pensamento e do estilo. Como se verdadeiramente não houvesse sido ao próprio Campos, mas ao seu emissário - heterónimo do heterónimo - que ele tivesse desta vez confiado a pena - ou antes, o teclado (sabemos que Campos bate directamente os seus textos à máquina de escrever).»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 347-348.
Ver Super-homem

Unidade

«Acontece que a obra-vida de Pessoa tem uma tremenda unidade. Quem a quiser entender como obra de um blagueur, fica aquém do seu entendimento. Quem a procurar compreender na sua densidade críptica à luz de teorias, crenças e práticas mais ou menos ocultas - passa para lá da possibilidade de a alcançar.
Não é a nível das opiniões emitidas por Pessoa, ou por qualquer um dos seus outros, que se pode procurar o fio íntimo da coerência da obra mas sim numa atitude de fundo que, essa, está para além das manifestações, propositadamente várias, de uma personalidade que se quis poliédrica: a expressão lúdica de um temperamento «fundamentalmente religioso», como afirmou ser. Esse ludismo impediu-o de se tomar demasiado a sério nas manifestações da sua religiosidade e essa religiosidade deu sempre aos seus exercícios lúdicos um alcance de «ritual dramático». Foi assim que aquilo que chamo o romance-drama-em-gente saltou do espaço do profano (da brincadeira avulsa) para o do sagrado: é um «faz-de-conta» ritual a que Pessoa dedicou toda a sua vida e que até, de certo modo, foi a sua vida mais real.»
Teresa Rita Lopes. Pessoa por Conhecer - Roteiro para uma expedição. Lisboa: Estampa, 1990, p. 56.

Tempo

«[...] o tema do fluir do tempo, expresso normalmente pelo símbolo do rio, é comum a Caeiro, Álvaro de Campos e Fernando Pessoa.
Caeiro sabe que as bolas de sabão são "claras, inúteis e passageiras como a natureza"; pede à ave que passa que o ensine a passar; contenta-se hedonisticamente com "sentir a vida correr por ele como um rio por seu leito" e goza a constante mudança das coisas como fonte de variedade que é: «a Natureza de ontem não é Natureza. / O que foi não é nada, e lembrar é não ver».
Sem a calma olímpica do Mestre, Campos é nervoso e exclamativo: «Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!» repisa as palavras para sugerir o peso dos instantes que passam: «Parece que passam sem ver-me os instantes, / Mas passam sem que o seu passo seja leve...». Dirige-se ao rio como companheiro de viagem: «Água do rio, correndo suja e fria, / Eu passo como tu sem mais valer...». [...]
[...] Para Fernando Pessoa recordar não é reviver, é apenas verificar com dor que fomos outra coisa cuja realidade essencial não é permitido recuperar. Vimos da sombra e vamos para a sombra. Só o presente é nosso, mas o que é o presente senão a linha ideal que separa o passado do futuro?»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 94-96

Teosofia

«Numa carta de 6 de Dezembro de 1915 a Sá-Carneiro, que ficou por acabar - o que explica ter sido encontrada - Pessoa explicava as circunstâncias que o tinham levado a interessar-se pelo ocultismo. Um editor de Lisboa queria criar uma «colecção teosófica e esotérica», composta no essencial por obras inglesas. Conhecendo a sua competência, confiou-lhe a respectiva tradução. Entre os autores a traduzir contavam-se nomeadamente Helena Blavatsky fundadora da escola teosófica contemporânea, e Annie Besant, que adquiriu mais tarde uma reputação universal ao descobrir e apadrinhar Krishnamurti. «Tive de traduzir livros teosóficos. Eu nada, absolutamente nada, conhecia do assunto. Agora, como é natural, conheço a essência do sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível, tratando-se de qualquer sistema religioso. O carácter extraordinariamente vasto desta religião-filosofia; a noção de força, de domínio, de conhecimento superior e extra-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Coisa idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me «hante».[...] Ora, se V. meditar que a teosofia é um sistema ultracristão - no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus - e pensar no que há de fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essencial, V. terá o primeiro elemento grave que se acrescentou à minha crise. Se, depois, reparar em que a Teosofia, porque admite todas as religiões, tem um carácter inteiramente parecido com o do paganismo, que admite no seu panteão todos os deuses, V. terá o segundo elemento da minha grave crise de alma. A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo [...], atrai-me por se parecer tanto com um «paganismo transcendental» [...]. É o horror e a atracção do abismo realizados no além-alma...»»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 314-315.

Tédio

«O tédio, «ce monstre délicat» que Baudelaire ensinou a cantar, é o reverso duma fome de Absoluto que tudo contraria ironicamente. O desejo de viajar, correr mundo, renovar constantemente sensações, corresponde à necessidade de inebriar a alma insatisfeita de quem não encontra na vida motivo para viver. De facto, viajar, na imaginação do poeta, é "ser outro constantemente", "viver de ver somente", não pertencer nem a mim. O espectadorismo, o alhear-se de si, quadram à psicologia dum homem torturado pela auto-análise e inepto para a acção. Mesmo assim é preciso dar os primeiros passos, fazer as malas, subir a prancha... E tudo isso custa tanto! Qualquer coisa prega Fernando Pessoa ao lugar onde está; não o ter aí raízes, porque em toda a parte é um desenraizado; mas o medo de decidir-se, de comprometer-se, o apego ao que se tem, embora o que se tem seja tão pouco [...].»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 124

Supra-Camões

«E «fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões». Tendo assim profetizado o aparecimento de um «supra-Camões», Pessoa termina por um acto de fé e uma aleluia. «Tenhamos a coragem de ir para aquela louca alegria[...]. Prepara-se em Portugal uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso.»
Fizeram-se diversas leituras deste texto extravagante. Crespo sublinha-lhe a ironia com razão, mas parece ver aqui apenas uma farsa. Gaspar Simões entende-o como uma amplificação oratória do anúncio do Orpheu e do modernismo. A verdade é mais simples e mais louca. O imenso génio cuja chegada iminente Pessoa prevê, que fará sombra a quatro séculos de poesia portuguesa e através de quem Portugal se elevará, na ordem literária, à categoria das maiores nações do mundo, é sem dúvida ele, o jovem poeta desconhecido. Sem isso, o que escreve não faz qualquer sentido. Por vezes, como que por pudor, finge-se acreditar que ele se toma por um São João Baptista, clamando no deserto e preparando o caminho de Outro, maior, que há-de vir. Mas não, esse Outro é ele. Tudo o que se seguirá na sua obra vai mostrá-lo retrospectivamente, entranhado que está, desde o início, da certeza de ter uma missão sobre-humana a cumprir. Este artigo um pouco pesadão de 1912 é uma primeira mensagem», ao qual virá responder a Mensagem altaneira de 1934. Lido deste modo, ele assume uma grandeza singular.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 162-163.

Sociologia

«Um dos seus postulados é que os fenómenos políticos são de natureza social. A única ciência política possível é uma sociologia. Mas não existe sociologia moderna. «Tomando a imagem da química, podemos dizer que a ciência chamada sociologia está ainda no seu período alquímico. De forte e seguro, em matéria sociológica ou política, pouco temos [...] a não ser a «Política» de Aristóteles, fruto de toda a experiência política da Grécia antiga, e «O Príncipe», de Machiavelli, fruto de toda a experiência política da Renascença.» Assim, Pessoa vai ter de inventar um tipo de investigação que não será nem fundamental nem aplicada. «Não nos interessa - escusado será dizê-lo - senão aquela parte que é teoria [...], a teoria preliminar da acção.» Baseia esse estudo no princípio dialéctico da resistência e do movimento. Nas sociedades «progressivas», como são as sociedades europeias modernas, «o que é fundamental se resume em duas forças - uma que tende a fazer progredir, outra que tende a resistir ao progresso.» Ora, de uma maneira geral, «tudo quanto vive, vive em virtude do equilíbrio de duas forças - uma força de integração e uma força de desintegração.» Podem existir duas formas de desequilíbrio, dependendo de qual das duas forças se impuser à outra. A predominância das forças conservadoras traz consigo a «estagnação», a das forças progressivas provoca a anarquia. Mas as duas situações acabam por convergir: nos dois casos, há decadência, «perda de coesão e de vitalidade» e «desnacionalização» parcial.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 358-359.

Super-homem

«Ao abrir o caminho, o poeta compromete-se com ele. Ao invocar o super-homem, ele passa a sê-lo também. A consciência que Pessoa tem da sua própria grandeza, ele, o «Super-Camões», novo Shakespeare, reincarnação do «Encoberto» D. Sebastião, dá um tom de sinceridade comovente a este Ultimatum, justificando os seus excessos. A voz estridente de Campos, aquela voz que para Pessoa é uma maneira de se comprometer a fundo com a sua própria palavra, nunca mais se fará ouvir desta maneira, nem em verso nem em prosa, para nos chamar àquele excesso de humanidade que é o contrário do «humanismo» e do «humanitarismo». Mas talvez a amálgama dos textos escritos depois de 1917, que constituem a «obra» de Pessoa prosador, não seja mais que os «trocos» sensatos e modestos dessa mensagem inicial divulgada em altos brados. Para ele, também o Homem, tal como a nossa civilização judaico-cristã o fez, tem de ser ultrapassado. O Super-Homem será transpessoal - «Síntese-Soma», múltiplo e universal: é o programa de vida e de trabalho do poeta e do ensaísta, que se propõe pensar tudo «de todas as maneiras».
A conclusão deste Ultimatum lembra Nietzsche. Mas o Super-Homem de Campos é bem diferente de Zaratustra. Pessoa acusa Nietzsche de ser um falso pagão, um falso grego, um falso mediterrânico, um «Baco alemão», de ser, no fim de contas, um cristão que se ignora. Reconhece-lhe contudo uma forma de grandeza, a de ter afirmado «que a alegria é mais profunda que a dor, que a alegria quer profunda, profunda eternidade». O que resta de romantismo no desejo de poder nietzschiano não é senão uma forma perversa do desejo de universalidade de Campos - e de Pessoa. Ser um denominador comum a todas as sensibilidades e a todos os pensamentos é, para ele, para eles, o meio de ultrapassar a natureza e a condição do homem.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 353-354.

Soares

«Bernardo Soares não é um verdadeiro heterónimo. Não é uma personalidade tão diferente de Pessoa «ele mesmo» como são Caeiro, Reis e Campos. O paradoxo, aliás, reside no facto de este homem cuja pena exala palavras geniais ser um medíocre. É um homem sem qualidades, a quem a vida parece ter limado as asperezas ou apagado os contornos: personagem não apenas sem máscara, mas sem rosto, diferente da personalidade «verdadeira» de Pessoa, não por transposição ou inversão, como Caeiro, nem por adição ou multiplicação, como Campos, mas por subtracção, esvaziamento, escavamento; como se tudo o que há no homem normal de convenção, de ilusão, de amor-próprio, nele tivesse sido retirado pelo ácido da consciência crítica. Soares não é um outro diferente de Pessoa, e também não é Pessoa; ele é o nada que Pessoa descobre em si mesmo quando pára de fingir.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 514-515.

Ver Fingimento

Sinceridade

«Entretanto, à medida que examinamos os inéditos, velhas perguntas se reavivam e novos problemas nos assaltam. Qual o grau de convicção dos textos doutrinários e críticos de Pessoa? O problema da sinceridade não será comum à prosa e à poesia? Uma visão parcial, a aceitação ingénua dum texto ou dum conjunto homogéneo de textos, é caminho ilusório: só uma visão de conjunto habilita (se é que habilita) a uma resposta válida. O que parece indiscutível é que também a prosa se nos oferece sob o signo da pluralidade, da diversidade. No concernente a determinados temas, Fernando Pessoa dá-nos tão fortes argumentos para demonstrar uma tese como para defender a tese contrária. O seu pensamento é ironicamente ambíguo.»
Jacinto do Prado Coelho. Prefácio a Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação de Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966, p. XXII-XXIII

Sensacionismo

«É precisamente nestas páginas programáticas sobre o Sensacionismo que descobrimos a frase-chave para toda a obra de Fernando Pessoa, a explicação de todas as contradições, a solução de tantos enigmas: «Sentir tudo de todas as maneiras». Outra fórmula-chave repete: «Sê plural como o Universo!». Eis o programa da vida e da arte deste poeta. Com a ajuda destas duas frases podemos desfazer todas as contradições aparentes. O que foi, primordialmente, o impulso cego do seu temperamento de fingidor, tornou-se depois, através dos esforços da reflexão, o pensamento condutor da sua existência artístico-ideológica. Enternecedores nos parecem os conselhos do poeta aos seus companheiros para que sigam a sua esteira, multiplicando as suas personalidades em favor da expressão artística, quando, na verdade, o programa sensacionista fica, na sua substância, intransmissível e pessoalíssimo. Será um programa? Não será, antes, uma regra de comportamento: «Sentir tudo de todas as maneiras», i.e.: passar por tudo sem nunca se ligar a nada, ser tudo ao mesmo tempo e com a mesma legitimação: ser patriota ardente e indiferente perante a pátria e a religião, ser pagão e cristão gnóstico, defender a monarquia ideal e o princípio aristocrático e confessar-se liberal até à medula? Todas estas contradições se dissolvem se lermos atentamente as páginas sobre o Sensacionismo. Não estamos aqui perante uma perigosa relativização de todos os valores ? De certo modo, sim. Mas esta mudança contínua das posições intelectuais justifica-se por ser um método muito pessoal para criar uma nova expressão artística. «Brincar com as ideias» está na base do que podemos chamar o relativismo criador de Pessoa; ele examina todas as possibilidades espirituais da época para extrair delas os elementos para uma nova arte universal, nisso um parente longínquo de Gottfried Benn, seu contemporâneo (1886-1956), o maior poeta entre os expressionistas alemães, que pregou, por volta de 1925, um niilismo criador, fazendo tábua rasa dos valores consagrados para melhor acentuar a permanência eterna da obra de arte. Pessoa é, sem dúvida, um dos expoentes máximos da polivalência intelectual do nosso tempo, um Fausto moderno, procurando a chave para o mistério do ser, a quem nem sequer falta o pequeno pacto com satanás, assinado, por Alexander Search (o «Busca» dos poemas ingleses), com tinta em vez de sangue.»
Georg Rudolf Lind. Prefácio a Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação de Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966, p. XIV-XVI
Ver Campos sensacionista

Sentido

«Só por um fugaz optimismo o poeta admite que nos é possível entrever " o sentido / do que aqui está a esgarar".
Compreendemos agora o sentido das palavras de Campos, ao dizer que o seu mestre Caeiro lhe ensinou "a clareza da vista" mas não lhe ensinou, porque não podia, "a ter a alma com que a ver clara".
Campos: está doido a frio: conserva uma lucidez implacável até nos momentos em que no seu espírito parece haver centelhas dum lume desconhecido; chama impiedosamente embriaguez ou sonho às experiências em que a parte irracional do seu ser julga vislumbrar o oculto. Daí o drama da sua vida de pensamento, que foi a vida autêntica desse homem sem biografia.»
Jacinto do Prado Coelho. Prefácio a Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação de Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966, p. ...

Sebastianismo

«As controvérsias sobre o Sebastianismo de Pessoa deixam sempre no grande público, e também, afinal no que, por oposição, teríamos que chamar «pequeno público» dos entendidos, a vaga impressão de que nesse campo teremos que admitir, sem discutir, as convicções que às vezes parecem de louco ou megalómano, e não são do domínio do racional. Como essa de acreditar que o Encoberto, o Desejado, o que traria para o Império Português a sua nova Idade de Ouro era, nem mais nem menos do que ele, Fernando Pessoa. Mas temos que nos lembrar que a vinda do Encoberto era apenas por ele encarada «no seu alto sentido simbólico» e não literal, como faziam os Sebastianistas tradicionais, de quem toma distância, e que esse Desejado não seria mais do que um «estimulador de almas». E que, mesmo assim, como ouvimos afirmar, apenas podia «compellir cada alma a, de facto, operar a sua própria salvação». Se tudo isto entendermos, sem esquecer que o Quinto Império era afinal «o Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa», não obedecendo nem «a fórmula política nem ideia religiosa», e que «Portugal, neste caso, quer dizer o Brasil» também perceberemos que o projecto de Pessoa era desmesurado, sim mas louco, não.»
Teresa Rita Lopes. Pessoa Inédito. Lisboa: Livros Horizonte, 1993, pp. 33-34.

Search

«A obra de Alexander Search, que só agora começamos a descobrir, é o elo que faltava nesta evolução que leva do poeta clássico e romântico ao «modernista», da efusão sentimental ao lirismo crítico, da busca ansiosa do ego à despersonalização sistemática, da fé cristã perdida ao «paganismo» reencontrado. Ao lermos estes textos em verso e em prosa, todos evidentemente escritos em inglês, apercebemo-nos de que Pessoa, dos quinze aos vinte anos, situou na consciência semifictícia de Search e na sua obra, bem real, a experiência espiritual tempestuosa vivida nessa «curva da estrada» da sua vida de homem, essa luta com o Anjo cujo duplo (Alexander Search) sai por fim vencido, para que ele mesmo, Pessoa, possa tirar a sua satisfação e transpor um limiar, passar a uma outra etapa da sua iniciação poética. Search é a crisálida de Caeiro, de Reis e de Campos. Desta temporada no inferno, Pessoa surgirá, alguns anos depois, num estado de disponibilidade total que lhe permitirá acreditar, pelo menos provisoriamente, que obteve a salvação.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, p. 105.

Saudosismo

«De início, Pessoa mantém-se afastado desta agitação intelectual: é desconhecido, ainda não publicou nada, tem poucos amigos. Mas segue de longe o que se faz, se diz e se escreve no círculo da «Renascença Portuguesa». Imagino-o a ler poemas e artigos que aparecem em A Águia ou noutras publicações, animado daquela paixão lúcida, crítica, com que acolhe as verdades novas. O saudosismo é para ele uma descoberta e uma confirmação. Entrando no patriotismo como numa religião, adere à «Renascença» como a uma Igreja cujo dogma é uma visão escatológica da história portuguesa. Mas o saudosismo de Pascoaes reforça também o seu desejo de, através da criação poética, chegar a uma superação das suas contradições, a uma fusão do sujeito e do objecto, a uma união ardente da «alma» e do corpo, ao desenvolvimento harmonioso do ser único na diversidade e ao repouso do múltiplo na união original».
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, p. 154.

Salazarismo

«Como é que Pessoa, em 1933, terá acolhido a chegada do Estado Novo, e o que pensava ele de Salazar? É uma questão controversa. Ángel Crespo é categórico: desde o princípio que Pessoa recusou a ditadura. «O velho liberal que havia nele» não podia suportar a opressão. Exprimiu a sua oposição, de início em segredo, nas notas que redigia para si mesmo, e depois com os seus amigos, nas cartas e nas conversas, e finalmente em público. Alfredo Margarido é igualmente formal: Pessoa foi, desde o início, um partidário convicto da ditadura salazarista, cujos valores coincidiam com os que ele exaltara toda a sua vida, desde o ensaio sobre Carlyle ao poema a Sidónio Pais; segundo ele, só no início de 1935 (a partir do mês de Fevereiro) é que rompeu com o salazarismo e se tornou opositor do regime; os anos 1933-1934 são, pois, um período de colaboração com o poder.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, p. 535.

Rosa-Cruz

«Durante anos, o poeta estudou os sistemas de iniciação das diferentes ordens existentes então ou no passado. Leu numerosas obras, tirou centenas de páginas de notas e redigiu em rascunho dezenas de fragmentos destinados aos seus quatro grandes tratados. Interessou-se particularmente por quatro ordens, que historicamente têm ligações entre si, tendo contudo cada uma a sua tradição própria: a Ordem do Templo; a Ordem de Cristo, que foi a sua herdeira em Portugal; a Fraternidade Rosa-Cruz; a Franco-Maçonaria. Foi, como vimos, pela Rosa-Cruz que começou o estudo do pensamento ocultista, quando, muito jovem ainda, leu um livro inglês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz, cujo herói é um adolescente inspirado, Johan Valentin Andrea, que, no século XVII, escreveu As Núpcias Químicas de Christian Rosencreutz, livro fundador da doutrina. É dessa tradição que ele se vai sentir intelectualmente mais próximo, até ao fim. Mas interessou-se também apaixonadamente pela história dos Templários.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 498-499.

Romance-Drama

«O romance-drama foi concebido como uma terapia, individual e civilizacional. Como todos os meninos, Pessoa gostava de brincar aos médicos...
Campos fez o papel do «doente, - que ele, Pessoa, era: um esquema do punho de F. Pessoa o diz claramente . Para os curar (a ele e a todos os que fingem a dor que ele «deveras sente») inventou o Neopaganismo, com o seu teórico, Mora, o seu Mestre, Caeiro, e o seu coadjuvante Reis, pilares-mores desse templo. Para se tentar curar dessa doença de ser não só judeu mas cristão-novo, de mal com o seu corpo, fonte de pecado, e com o seu espírito, insone, confuso, indisciplinado, Pessoa deu à luz, catarticamente, Álvaro de Campos. Para se livrar do medo de enlouquecer como a avó paterna, Pessoa fez com que Campos enlouquecesse em seu lugar: pôs mesmo, catarticamente o dedo nessa ferida, nesse medo: «Cá está ela!» exclama Campos, num poema - «Tenho a loucura aqui, exactamente na cabeça!»
Através de Campos, de Reis, de Caeiro, Pessoa exorcizou os seus medos. Representou-os para deles se livrar, como diz nesta estrofe:
Ficção num palco sem tábuas
Vestida de papel de seda
Mima uma dança de mágoas
Para que nada suceda.
Nesse palco em que se tornou, fê-los viver em seu lugar essa vida e essa morte que igualmente o aterravam: porque Caeiro morreu em 1915 tuberculoso, se livrou do mal que vitimou o pai e o irmão pequeno e cujo fantasma o perseguiu a vida toda; porque Campos tocou com as próprias mãos o sítio da sua loucura, a ela pôde escapar; porque Reis e também Campos viveram com elegância amores homossexuais pôde livrar-se desse medo que confessa num diário íntimo. Através de Campos venceu o medo do outro, enquanto semelhante passivo ou interlocutor, e teve «gestos fora do seu corpo»: gestos e palavras obscenas mesmo, gestos e palavras de amor. Campos sentava-se à mesa de jantar de um quotidiano burguês com uma qualquer Daisy de que apenas sabemos que tocava piano, que tinha umas mãos cuidadas «postas com boas maneiras inglesas sobre a toalha». Também Campos fez as viagens de que Pessoa confessa ter pavor. E para exorcizar a morte, longamente a encena na pessoa desse judeu errante de si próprio, sempre com a mala na mão, no cais de uma qualquer viagem «física ou psíquica», na gare do Comboio Definitivo, direcção: «Lá bas, je ne sais où...»
Na pessoa de Caeiro tentou perder o medo do oculto, de todo o oculto de que o terror confessado das trovoadas era sinal apenas. Lembremo-lo quando atribui, no IV.º poema do «Guardador de Rebanhos», aos trovões e relâmpagos contorno de presenças quotidianas: «um pedregulho enorme», uma grande cabeça que diz «não» - e acrescenta «não, eu não tinha medo», como um menino que se gaba de já não temer o escuro.
Purgando-se do seu lastro de feridas e medos, o imaginamos na escalada para seres cada vez mais perfeitos, mais despojados das quotidianas penas: Campos, o que carrega todos os fardos e todas as feridas de Pessoa, no primeiro patamar; no segundo, Reis, o mestre-aluno de ensinar e aprender a serenidade dos deuses; e no último, entrevemos esse que foi criado para ser «uma infância e uma libertação»: Caeiro, claro.
Teresa Rita Lopes. Pessoa por Conhecer - Roteiro para uma expedição. Lisboa: Estampa, 1990, pp. 180-181.
Ver Dramaturgo