«Durante anos, o poeta estudou os sistemas de iniciação das diferentes ordens existentes então ou no passado. Leu numerosas obras, tirou centenas de páginas de notas e redigiu em rascunho dezenas de fragmentos destinados aos seus quatro grandes tratados. Interessou-se particularmente por quatro ordens, que historicamente têm ligações entre si, tendo contudo cada uma a sua tradição própria: a Ordem do Templo; a Ordem de Cristo, que foi a sua herdeira em Portugal; a Fraternidade Rosa-Cruz; a Franco-Maçonaria. Foi, como vimos, pela Rosa-Cruz que começou o estudo do pensamento ocultista, quando, muito jovem ainda, leu um livro inglês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz, cujo herói é um adolescente inspirado, Johan Valentin Andrea, que, no século XVII, escreveu As Núpcias Químicas de Christian Rosencreutz, livro fundador da doutrina. É dessa tradição que ele se vai sentir intelectualmente mais próximo, até ao fim. Mas interessou-se também apaixonadamente pela história dos Templários.»Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 498-499.
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Rosa-Cruz
Ocultismo vs Paganismo
«Enquanto Reis e Mora, seguindo o seu mestre Caeiro, tentam elaborar uma teoria do paganismo, o próprio Pessoa começa a repensar a religião da sua infância à luz das doutrinas que acaba de descobrir. Depressa se desligará da teosofia propriamente dita, demasiado dogmática para seu gosto. Em contrapartida, o seu interesse pela tradição Rosa-Cruz, e depois pelos rituais da Ordem do Templo, vai reforçar-se cada vez mais, até ao fim. Tudo isso, juntamente com a prática do espiritismo em que o iniciou a tia Anica, da astrologia para a qual o seu guia parece ter sido Augusto Ferreira Gomes, e da numerologia, de que lhe fala um outro amigo, Fernando de Lacerda, se insere num mesmo domínio pelo qual muitos outros intelectuais e escritores europeus do seu tempo também se interessaram, de Ouspensky e Gurdjieff a Daumal e Breton. «Há mais coisas à face da terra e no céu do que sonha a nossa filosofia.»
[...] Nada parece mais oposto ao paganismo de Caeiro, Reis e Mora, religião imanente de um mundo finito, do que o ocultismo, «religião-filosofia» transcendente de um mundo infinito. Na carta a Sá-Carneiro, vemos que Pessoa pretende subordinar o ocultismo ao paganismo, como um caso particular de uma forma de pensamento universal. É o que Reis faz com o cristianismo, caso particular do paganismo antigo: Cristo é «mais um deus» no panteão; um deus que, a falar verdade, «faltava» lá. À medida que for progredindo nos seus estudos esotéricos e que for tendo mais consciência de passar do estatuto de «neófito» ao de «adepto», ele vai renunciar a essa ilusão de um sincretismo e procurará, pelo contrário, o que faz a especificidade desse imenso domínio que nunca mais cessará de explorar até morrer.»Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 315-316.
O Último Sortilégio
«O Último Sortilégio é a confissão-encantamento de uma feiticeira que renuncia à sua arte para renascer sob outra forma e com outra vocação. Neste sentido, o poema prolonga a Abdicação de 1913 e anuncia os grandes textos em verso e em prosa sobre a iniciação que datam dos anos 1932-1933. É, segundo diz Pessoa, «uma interpretação dramática da «magia da transgressão».» O primeiro passo, na via que o poeta decide encetar na busca da verdade oculta, é essa tabula rasa, ou essa metanóia: tem de despojar-se de si mesmo para se tornar o seu próprio ser original e universal.»Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 490-491.
Iniciação
«Pôs-se a questão de saber se Pessoa terá sido ou não também um iniciado, um «adepto». É difícil imaginá-lo a submeter-se a provas semelhantes àquelas que descreve o biógrafo de Crowley, ou a participar em sessões como as que relata. Ele confirma-o no fim da sua carta de 13 de Janeiro de 1935 a Casais Monteiro: «Não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma». Contudo, na nota biográfica que redige em Março de 1935, declara-se «iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal». Só há uma única explicação possível para esta contradição, e é a adoptada por Crespo: «a auto-iniciação» de Pessoa, graças ao estudo dos escritos esotéricos de toda a espécie, e, acima de tudo, à prática da poesia. Sem que a palavra seja pronunciada, o Essay on Iniciation é, implicitamente, um manual de auto-iniciação: e vários outros fragmentos esparsos confirmam esta possibilidade de uma iniciação do terceiro tipo: ao lado da iniciação «exotérica» (como a «maçónica») e da iniciação «esotérica» (a «dos Rosa-Cruz»), existe uma iniciação «divina», na qual o neófito é instruído por contacto directo com o Espírito transcendente, sem a meditação de um Mestre carnal nem de uma instituição real: «Iniciado Divino é, por exemplo, um Shakespeare. A este tipo de iniciação vulgarmente se chama génio».»Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 499-500.
Crowley
«Numa vida tão pobre em acontecimentos exteriores, o encontro com Crowley é uma autêntica dádiva para os biógrafos. Este Aleister Crowley é um dos homens mais extraordinários do século XX. O poeta de Fausto, o cantor do «Super-Homem» (no seu Ultimatum), o narrador da Hora do Diabo, pode ter-se sentido tentado a ver nele o seu semelhante e, ao mesmo tempo, o seu contrário. Terá reconhecido nele, como que num espelho mágico, a sua própria face luciferina (ou satânica?; aí é que está a questão), ora assumida, ora negada.
Edward Alexander Crowley (1875-1947), a quem chamavam Allick em pequeno, adoptou o nome de Aleister aos vinte anos, no momento em que escolheu a liberdade total, tornando sua a divisa de «São Rabelais», como lhe chamará mais tarde numa conferência que ficou célebre: «A única lei é: Faz o que quiseres. Porque cada homem é uma estrela. Mas a maioria não o sabe. Até os ateus mais empedernidos são bastardos do cristianismo. O único que ousou dizer Eu sou Deus morreu louco, embalado pela sua querida mãe de crucifixo em punho. Chamava-se Friedrich Nietzsche. Os outros, os humanóides do nosso século XX, substituíram Jesus Cristo por Mammon, e as festas pelas guerras mundiais[...]. Após o reinado do humano, demasiado humano, a ditadura do infra-humano...»»Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 482-483.
Ver: http://multipessoa.net/labirinto/vida-e-obra/30
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