Ficheiro de citações bibliográficas sobre a obra de Fernando Pessoa
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia ortónima. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia ortónima. Mostrar todas as mensagens

Romance-Drama

«O romance-drama foi concebido como uma terapia, individual e civilizacional. Como todos os meninos, Pessoa gostava de brincar aos médicos...
Campos fez o papel do «doente, - que ele, Pessoa, era: um esquema do punho de F. Pessoa o diz claramente . Para os curar (a ele e a todos os que fingem a dor que ele «deveras sente») inventou o Neopaganismo, com o seu teórico, Mora, o seu Mestre, Caeiro, e o seu coadjuvante Reis, pilares-mores desse templo. Para se tentar curar dessa doença de ser não só judeu mas cristão-novo, de mal com o seu corpo, fonte de pecado, e com o seu espírito, insone, confuso, indisciplinado, Pessoa deu à luz, catarticamente, Álvaro de Campos. Para se livrar do medo de enlouquecer como a avó paterna, Pessoa fez com que Campos enlouquecesse em seu lugar: pôs mesmo, catarticamente o dedo nessa ferida, nesse medo: «Cá está ela!» exclama Campos, num poema - «Tenho a loucura aqui, exactamente na cabeça!»
Através de Campos, de Reis, de Caeiro, Pessoa exorcizou os seus medos. Representou-os para deles se livrar, como diz nesta estrofe:
Ficção num palco sem tábuas
Vestida de papel de seda
Mima uma dança de mágoas
Para que nada suceda.
Nesse palco em que se tornou, fê-los viver em seu lugar essa vida e essa morte que igualmente o aterravam: porque Caeiro morreu em 1915 tuberculoso, se livrou do mal que vitimou o pai e o irmão pequeno e cujo fantasma o perseguiu a vida toda; porque Campos tocou com as próprias mãos o sítio da sua loucura, a ela pôde escapar; porque Reis e também Campos viveram com elegância amores homossexuais pôde livrar-se desse medo que confessa num diário íntimo. Através de Campos venceu o medo do outro, enquanto semelhante passivo ou interlocutor, e teve «gestos fora do seu corpo»: gestos e palavras obscenas mesmo, gestos e palavras de amor. Campos sentava-se à mesa de jantar de um quotidiano burguês com uma qualquer Daisy de que apenas sabemos que tocava piano, que tinha umas mãos cuidadas «postas com boas maneiras inglesas sobre a toalha». Também Campos fez as viagens de que Pessoa confessa ter pavor. E para exorcizar a morte, longamente a encena na pessoa desse judeu errante de si próprio, sempre com a mala na mão, no cais de uma qualquer viagem «física ou psíquica», na gare do Comboio Definitivo, direcção: «Lá bas, je ne sais où...»
Na pessoa de Caeiro tentou perder o medo do oculto, de todo o oculto de que o terror confessado das trovoadas era sinal apenas. Lembremo-lo quando atribui, no IV.º poema do «Guardador de Rebanhos», aos trovões e relâmpagos contorno de presenças quotidianas: «um pedregulho enorme», uma grande cabeça que diz «não» - e acrescenta «não, eu não tinha medo», como um menino que se gaba de já não temer o escuro.
Purgando-se do seu lastro de feridas e medos, o imaginamos na escalada para seres cada vez mais perfeitos, mais despojados das quotidianas penas: Campos, o que carrega todos os fardos e todas as feridas de Pessoa, no primeiro patamar; no segundo, Reis, o mestre-aluno de ensinar e aprender a serenidade dos deuses; e no último, entrevemos esse que foi criado para ser «uma infância e uma libertação»: Caeiro, claro.
Teresa Rita Lopes. Pessoa por Conhecer - Roteiro para uma expedição. Lisboa: Estampa, 1990, pp. 180-181.
Ver Dramaturgo

Quimera

«Uma vez caído neste abismo de desalento, julgaríamos que o poeta só teria o refúgio da semi-inconsciência em que o tédio se adelgaça até quase não doer [...]. Mas a poesia de Fernando Pessoa tem outra face, esta heróica, em que se procura superar o tédio pela intuição dum destino supra-individual. É a poesia da Mensagem. Em Campos e na Mensagem surpreendemos a oscilação dum mesmo espírito entre a desistência e o sonho a que se chama fé. Campos vê na sua melancolia a melancolia de um povo que teve um Império e o perdeu, ficando sem objecto para a sua ânsia e até sem forças para desejar. «Pertenço a um género de Portugueses / Que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho» [...].
A Índia que o poeta busca, bem o sabe, só há dentro dele. O Longe a que aspira não passa duma quimera: «Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve - / Em parte nenhuma, graças a Deus!» Mas se o poeta afirmar, num desafio quixotesco, a realidade da quimera? Porque não será mais real o que só existe dentro da alma?»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 127.

Pessoa


«O Pessoa ortónimo diverge muito de Caeiro e Reis porque não expõe uma filosofia prática, não inculca uma norma de comportamento: nele há quase apenas a expressão musical e subtil do frio, do tédio e dos anseios da alma, de estados quase inefáveis em que se vislumbra por instantes "uma coisa linda", nostalgias dum bem perdido que não se sabe qual foi...[...]
Uma resignação dorida, agravada, de quem sofre a vida sendo incapaz de a viver....o seu estrutural anti-sentimentalismo, a ausência do biográfico na sua poesia a tendência para reduzir as circunstâncias humanas concretas a verdades gerais.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p.41

Paùlismo


«Esta estética nova, que provoca o entusiasmo dos amigos do autor, é o que eles chamaram o «paulismo». Com efeito, o poema que o inaugura, escrito em 29 de Março de 1913, publicado somente no ano seguinte, mas que circulou imediatamente entre eles, Impressões do Crepúsculo, começa pela palavra «paúis», plural de «paúl», que significa pântano; [...]. O poema Paúis é de tradução difícil, e talvez, hoje, quase ilegível. É importante para a história literária e para a biografia do seu autor, transformando-o no chefe de um movimento que vai mudar a sensibilidade de toda uma época, mas não acrescenta nada de essencial à sua glória. Felizmente, no decurso do mesmo período, de Março a Dezembro de 1913, escreveu outros poemas, onde a mesma impressão fundamental - a de patinhar nos pântanos do ser, em vez de se lançar para a verdadeira vida - se exprime de uma forma muito menos alambicada. Em «Eis-me em mim absorto», em «Meus gestos não sou eu» ou no famoso «Ó sino da minha aldeia», o poeta renova o tema da saudade, essa nostalgia de não se sabe o quê tipicamente portuguesa, acentuando a consciência de si mesmo.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 184-185.

Paúis


«Uma coisa é preciso reter, contudo, deste esforço de Fernando Pessoa para se adaptar à estética da poesia por ele próprio proclamada a «nova poesia portuguesa». A originalidade de Paúis é incontestável. Eis uma composição inconfundível com as dos «saudosistas».
Distingue-se de todas as composições dos poetas contemporâneos de A Águia, quer «saudosistas» quer «lusitanistas». Nada existia, mesmo, então, na poesia portuguesa que lhe servisse de paradigma. Fernando Pessoa, no seu consciente esforço para se adaptar à estética que expusera, estética esta, realmente, em parte inspirada na obra dos principais «saudosistas», em parte intuída na sua própria presciência do que viria a ser, mais tarde ou mais cedo, a sua mesma poesia original, dera corpo a uma orientação poética que outros, que não ele, iriam superiormente cultivar.
Composta em Março de 1913, a poesia Paúis, posto que não tivesse sido publicada senão em Fevereiro do ano seguinte - data da estreia literária de Fernando Pessoa como poeta, apenas para «prendre date» talvez, como tantas vezes o aconselhara Mário de Sá-Carneiro -, logo se tornou famosa entre os poetas da roda da Brasileira e do Martinho. Sá-Carneiro, então em Paris, conhece-a, e no manuscrito da sua Dispersão, enviado para Lisboa ao próprio Fernando Pessoa quatro meses depois (Maio de 1914), já havia rasto do estilo literário que ela instituíra - o famoso «paùlismo».
Com efeito, Paúis está na origem da doutrina estética a que a gente do Orpheu veio a chamar «paùlismo». E o «paùlismo», autêntica intelectualização do «saudosismo», não pode deixar de considerar-se uma criação, até certo ponto involuntária, do mesmo Fernando Pessoa. De facto, o elemento intelectual que não comparecia na obra dos «saudosistas», todos emoção e instinto, é o traço distintivo do «paùlismo», pelo menos do «paùlismo» como o concebeu o cerebral cantor de Paúis.»

João Gaspar Simões. Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração. Lisboa: Bertrand, 1951, pp. 207-208.

Outro


«O poeta estranha-se a si próprio: «Meu ser / tornou-se-me estranho». O pretenso eu afigura-se-lhe multíplice, fragmentário, infinidade de estados psíquicos, «simples colecção de momentos», na expressão de Proust. Daí a sensação, não de viver, mas de sofrer passivamente a vida, como
«Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim.»
Na poesia ortónima, Pessoa chega a pensar que não passa de ponto de convergência de vários tempos-seres, de tal modo se sente vivido pelo tempo: «Um dilatado e múrmuro momento / De tempos-seres de quem sou o viver?». E Soares julga-se o palco de sonhos independentes dele, cousificados, que lhe surgem de fora «como o eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua...»
Quando tentamos reconstituir por dentro o passado, topamos dolorosamente com o vazio. O nosso "alguém" é "diverso e sucessivo". Campos fala do outro, daquele que foi vinte anos atrás, como dum desconhecido; diverte-se a imaginar as duas figuras só por ironia com o mesmo nome - o Campos antigo e o moderno -, cruzando-se na rua e olhando-se com indiferença.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 97-98

O Último Sortilégio

«O Último Sortilégio é a confissão-encantamento de uma feiticeira que renuncia à sua arte para renascer sob outra forma e com outra vocação. Neste sentido, o poema prolonga a Abdicação de 1913 e anuncia os grandes textos em verso e em prosa sobre a iniciação que datam dos anos 1932-1933. É, segundo diz Pessoa, «uma interpretação dramática da «magia da transgressão».» O primeiro passo, na via que o poeta decide encetar na busca da verdade oculta, é essa tabula rasa, ou essa metanóia: tem de despojar-se de si mesmo para se tornar o seu próprio ser original e universal.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 490-491.

Nostalgia

«O Pessoa ortónimo diverge muito de Caeiro e Reis porque não expõe uma filosofia prática, não inculca uma norma de comportamento; nele há quase apenas a expressão musical e subtil do frio, do tédio e dos anseios da alma, de estados quase inefáveis em que se vislumbra por instantes "uma coisa linda", nostalgias dum bem perdido que não se sabe qual foi, oscilações quase imperceptíveis duma inteligência extremamente sensível, e até vivências tão que não vêm «à flor das frases e dos dias» mas se insinuam pela eufonia dos versos, pelas reticências de uma linguagem finíssima.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 41

Mensagem

«Mensagem é, como Fausto e o Livro do Desassossego, a obra de quase toda uma vida. O poema mais antigo é datado de 21 de Julho de 1913 e o mais recente de 26 de Março de 1934. A diferença está em que todas as outras obras, excepto The Mad Fiddler, que ficou inédito, ficaram por acabar. A Mensagem é o único livro que Pessoa compôs, terminou, reviu e corrigiu, e finalmente publicou. Este livrinho de algumas dezenas de páginas é o mais importante e o mais representativo do seu génio singular. Se, de toda a sua produção multiforme, apenas se pudesse guardar uma única obra, seria com certeza esta, que a posteridade, cumprindo a profecia do jovem crítico de A Águia em 1912, acabou por reconhecer como um dos dois cumes da poesia portuguesa, sendo o outro Os Lusíadas.
Vimos que, no dia em que escreveu Gládio, que vai passar a chamar-se D. Fernando, Infante de Portugal  o poeta ainda não concebera o conjunto em que o poema se iria integrar. Parece que a ideia de um livro de poemas de inspiração nacional, centrado sobre os heróis da época das Descobertas, lhe terá vindo ao espírito na época «sidonista», em 1917-1918. É então que escreve a sequência de poemas publicados em revista em 1922 sob o título de Mar Português, e que vai constituir a parte central do livro. Após um período de seis anos em que o projecto parece abandonado, escreve, entre Setembro e Dezembro de 1928, uma nova sequência de poemas que, na sua maioria, serão integrados na primeira parte, e alguns na terceira e última. Ainda escreve alguns desses poemas entre 1929 e 1933. É provável que, durante todos esses anos, o projecto tenha amadurecido no seu espírito e que se tenha pouco a pouco afirmado o seu carácter original, que é o de unir numa mesma inspiração a exaltação do sentimento nacional, os mitos do Sebastianismo e do Quinto Império, o espírito da gnose e da tradição iniciática, em suma, a totalidade do que constitui a «visão Rosa-Cruz». Já em 1932, na sua carta a Gaspar Sirnões, ele fala de «Portugal, que é um livro pequeno de poemas (tem 41 ao todo)» como de um livro «quase pronto». Podemos contudo supor que é apenas entre Janeiro e Março de 1934 que concebe definitivamente a estrutura global que faz deste conjunto de elementos diversos um todo perfeitamente coerente. Escreve ou reescreve então um certo número de poemas. E é ainda mais tarde, quase no último momento, que decide mudar de título, a pretexto de que «o nome da nossa Pátria» estava então «prostituído e com os pés feridos», mas na verdade, sem dúvida, para melhor salientar que a epopeia da salvação nacional é, em sentido figurado, a aventura da salvação da alma pessoal: este livro épico e mítico é antes de mais espiritualista e místico.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 541-542.

Lucidez

*
«Só por um fugaz optimismo o poeta admite que nos é possível entrever "o sentido / do que aqui está a esgarar". Fernando Pessoa, como ele diz em nome de Campos, está doido a frio: conserva uma lucidez implacável até nos momentos em que no seu espírito parece haver centelhas dum lume desconhecido; chama impiedosamente embriaguez ou sonho às experiências em que a parte irracional do seu ser julga vislumbrar o oculto. Daí o drama da sua vida de pensamento, que foi a vida autêntica desse homem sem biografia. [...] Compreendemos agora o sentido das palavras de Campos, ao dizer que o seu mestre Caeiro lhe ensinou "a clareza da vista" mas não lhe ensinou, porque não podia, "a ter a alma com que a ver clara". Caeiro representa em Fernando Pessoa a "pavorosa ciência de ver", a exigência de positividade a que Pessoa obedece. Mas, enquanto, por um esforço sobre-humano, Caeiro postula que tudo neste mundo é objectivo, Pessoa, continuando a aceitar a realidade, acredita que tudo neste mundo é subjectivo. Fica assim confinado aos sonhos, à ilusão, à mentira da subjectividade, pois não confere (Caeiro não lho permite) valor objectivo ao conteúdo das suas intuições.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 86-87.
* Gaudenzio Nazario. Tudo transcende tudo. 1994.

Lirismo

«A poesia de Campos reflecte imediatamente as condições da existência empírica, surge penetrada de todas as actividades humanas, espelha deliberadamente a dinâmica, o fragmentarismo, o spleen, o tumulto, os contrastes violentos da civilização moderna.
Pelo contrário, o lirismo ortónimo rejeita quanto possível a circunstância, os sinais de uma época, as impressões fugazes de quando de vive na dependência do exterior; eleva-nos a uma atmosfera mais rarefeita, mais transparente, isola o que nós chamamos a partir do Simbolismo o poético puro. As imagens vêm aqui libertas do lastro da realidade concreta, reduzidas a símbolos intemporais: são a noite, as trevas, o rio, o lago, o mar, o vento ou a brisa, a fonte, as rosas, o azul; mais raramente imagens-símbolos dum matiz moderno como o andaime, o cais.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 144-145

Infância - símbolo

«A infância em Fernando Pessoa é fundamentalmente um símbolo - símbolo dum sector da sensibilidade que particularmente o atraía. Creio que as palavras de Pessoa a respeito dos seus poemas cujo tema é a infância, na carta a João Gaspar Simões de 11.12.1931, onde ele os atribui a "atitudes literárias", afirmando que nunca humanamente sentiu saudades de nada, tem visos de sinceridade; pelo menos estão de acordo com a sensação, por ele várias vezes expressa, de que não tinha passado, de que tudo se resume ao presente, incluindo o pretenso reviver do que fomos. A sua poesia testemunha-nos que submeteu a infância a um processo de intelectualização que a torna, pura e simplesmente, o símbolo da inconsciência, do sonho, duma felicidade longínqua, de candura e claridade que podem até adjectivar-se à hora matutina: «E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!...» Infância em Pessoa é uma categoria ou um cambiante da vida afectiva: «há um sabor de infância triste no mais adulto horror do seu tédio» - escreve ele a respeito de Nobre.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 114-115

Fausto

*
«Ao princípio, Pessoa quisera escrever uma verdadeira tragédia, tratar também, depois de Marlowe e de Goethe, o tema de Fausto, do seu debate com Deus e com o Diabo. Tivera até a ideia de retomar o mito no seu início, fazendo de Frei Gil de Santarém, cabalista português do séc. XIII, precursor do sábio Dr. Wittenberg, o herói do seu drama. Mas este projecto ficou pouco a pouco enredado na massa de reflexões propriamente ditas que nascem da sua própria actividade criadora. O Pessoa «paulista» narcísico, preso, como ele diz, na teia do seu excesso de consciência de si mesmo e da sua inteligência crítica, não pode evidentemente ter com a sua personagem a relação ingénua que Marlowe tem com a dele, e ainda menos a relação objectiva, soberana, que Goethe tem com o seu Fausto. Eduardo Lourenço, no seu prefácio intitulado Fausto ou a Vertigem Ontológica, diz: «À singular aventura representada pelo corpo a corpo com o mito de Fausto - que é já da ordem da criação na sua essência - sobrepõe-se uma aventura de outro género, a aventura de dar um corpo, existência, à escrita onde essa aventura primeira é substituída pela da dúvida acerca dos poderes mesmos da própria escrita». Em suma, a tragédia de Fausto torna-se na tragédia da tragédia. O tormento de Fausto-Pessoa é não saber como exprimir o seu tormento.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 194-195.
* Carlos Calvet. Fausto. Desenho s.d.

Estilo - Pessoa

«Nos seus poemas, sempre rimados, Pessoa prefere em regra o verso curto, de número de sílabas par ou ímpar, e a concisão da quadra ou da quintilha; alia assim a leveza da forma à subtil densidade do pensamento. o carácter alado destes poemas postula ao mesmo tempo uma linguagem seleccionada mas simples, com vocábulos de cariz romântico ou simbolista mas um núcleo de palavras nuas e correntes que o poeta habilmente rejuvenesce e enche de sentido. A sua grandeza consiste em atingir os efeitos estéticos mais penetrantes com um mínimo de estímulos, extrema economia de meios. São certas palavras, certos símbolos que sugerem aqui o inefável, a magia das visões ou a indecisão dos sentimentos: a melodia, a música, o anseio, o etéreo, os trémulos vincos risonhos na água adormecida. Mas a expressão é límpida, a sintaxe sem pregas obscuras.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 145

Chuva Oblíqua

«Embora Pessoa se tenha declarado discípulo de Caeiro e proclamado teorizador do «sensacionismo», o que é facto é que nem por isso deixou de construir, em 1914, um sistema muito diferente e mesmo, de certa maneira, diametralmente oposto, que, segundo diz, experimentou pela primeira vez em 8 de Março, antes de o comentar abundantemente nos seus ensaios. Chuva Oblíqua assemelha-se em certos aspectos aos poemas «paulistas» do período anterior, mas com diferenças notáveis. As impressões, em vez de serem voluntariamente vagas, brumosas, são de uma extrema nitidez. E, sobretudo, as cenas descritas encaixam umas nas outras: cada pormenor surge em duplicado, visto ou sentido ao mesmo tempo de dentro e de fora, tão bem que a sucessão dos planos que se recortam introduz no texto um princípio de clara incoerência, por assim dizer. Sente-se bem, na escolha das anotações de formas ou de cores, a influência do «sensacionismo», mas trata-se de um sensacionismo abstracto, em que as sensações são filtradas sistematicamente pela inteligência. O modelo do «interseccionismo» é evidentemente o cubismo, cuja revelação Pessoa recebera através de Sá-Carneiro.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, p. 275.

Ver Paùlismo

Cepticismo

«Vítimas de um destino comum, Campos e especialmente o Pessoa ortónimo iludem o espinho do cepticismo e do tédio («Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!») com os sonhos, os acordes duma vaga música interior, as lembranças e as promessas de não sabem o quê - sempre com a lucidez melancólica de suspeitarem da irrealidade do que lembram ou esperam ou imaginam. Outra espécie de devaneio que compensa tristemente o cepticismo de Pessoa é o jogo da inteligência gratuita que concebe posições mentais possíveis e até antagónicas, como no debate estético Pessoa-Campos - jogo a que Pessoa chama "devaneio lógico", uma das suas "principais exterioridades". [...] o Pessoa das demonstrações lógicas diverte-se a manejar uma inteligência desligada do ser, instrumento com que se pode até provar o absurdo, o que não deixa de ter o seu interesse. Imita assim aqueles jogadores de xadrez que, a dois passos da cidade incendiada e saqueada, prosseguiram calmamente no seu jogo inútil - tema paradigmático de uma ode de Reis.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 92

Ver Campos vs Pessoa

Caeiro Sensacionista

«Não espanta que Caeiro apareça à cabeça do Sensacionismo - ele, o curandeiro dessa doença de que, acabaram por reconhecer, o Sensacionismo enfermava também: «o excesso de entusiasmo pela saúde que têm os doentes». É que Caeiro, não o esqueçamos, foi criado no auge do despeito e da fúria de desacreditar o estreito nacionalismo que a Renascença e Pascoaes representavam para Pessoa e Sá-Carneiro. Numa entrevista que deu, em Vigo, Caeiro encarniça-se contra eles com toda a violência... . No artigo escrito para A Águia (inédito) para «lançar» Caeiro, ao mesmo tempo que essa «entrevista altamente provocadora», como aí precisa, afirma: «O simbolismo, o saudosismo, tanto um como (o) outro são inimigos da obra de A.C.» . Só, portanto, uma corrente cosmopolita poderia opor-se ao saudosismo da escola do Porto.»
Teresa Rita Lopes. Pessoa por Conhecer - Roteiro para uma expedição. Lisboa: Estampa, 1990, p. 214.

Ver Renascença Portuguesa

Antinous

«Pela sua soberana elegância, Antinous, que é o lamento do imperador Adriano diante do corpo morto, nu, do seu muito jovem e belíssimo amante, contrasta violentamente com a narração «animalesca» de um casamento de aldeia que é o Epithalamium. Num, é um eu que se dirige a um tu. No outro, o objecto de que se fala é designado por eles, ele ou ela, e o sujeito anónimo que o olha ou o imagina é um se indefinido. E quando o autor fala da «obscenidade» da sua obra, esta noção é ambígua. É certo que o corpo nu do adolescente morto é exposto ao olhar, o que é o verdadeiro sentido etimológico da palavra latina obscenus. Mas não há nada de menos rabelaisiano do que esta poesia em que mesmo as situações mais escabrosas são evocadas nos termos mais decentes.
«Conhecemos hoje Adriano, graças a Marguerite Yourcenar, muito melhor que os leitores de Pessoa. Sabemos que o imperador, com cerca de cinquenta e cinco anos, inconsolável pela morte, em 130, do seu favorito Antínoo, efebo grego de uma grande beleza que se afogara acidentalmente no Nilo, o deificou e impôs o seu culto.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, p. 319.

Amor

«Os raros poemas de amor da poesia ortónima visam muito menos amada, a posse ou a comunhão afectiva, que o pensamento do amor. A consciência que tem de amar afrouxa no poeta o amor; ao confessá-lo, ouve-se a si próprio, e, ouvidas as suas palavras ganham um timbre diferente. De facto, o objecto do seu amor é o próprio amor: «I love my love for thee more than I love thee» (XIII dos 35 Sonnets). Nenhum frémito sensual: apenas o encantamento do espectáculo da mulher adormecida: «Quero-te para sonho, / Não para te amar...» Imbuído de idealismo platónico, o poeta sabe que Eros está contido na Psique: somos nós próprios a Princesa encantada que procuramos. O seu amor não passa de pensamento: anseia mas não sente.»

Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 118-119

Ver Erotismo