«Os raros poemas de amor da poesia ortónima visam muito menos amada, a posse ou a comunhão afectiva, que o pensamento do amor. A consciência que tem de amar afrouxa no poeta o amor; ao confessá-lo, ouve-se a si próprio, e, ouvidas as suas palavras ganham um timbre diferente. De facto, o objecto do seu amor é o próprio amor: «I love my love for thee more than I love thee» (XIII dos 35 Sonnets). Nenhum frémito sensual: apenas o encantamento do espectáculo da mulher adormecida: «Quero-te para sonho, / Não para te amar...» Imbuído de idealismo platónico, o poeta sabe que Eros está contido na Psique: somos nós próprios a Princesa encantada que procuramos. O seu amor não passa de pensamento: anseia mas não sente.»
Jacinto do Prado Coelho. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Verbo, 1973, p. 118-119
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