Ficheiro de citações bibliográficas sobre a obra de Fernando Pessoa

Antinous

«Pela sua soberana elegância, Antinous, que é o lamento do imperador Adriano diante do corpo morto, nu, do seu muito jovem e belíssimo amante, contrasta violentamente com a narração «animalesca» de um casamento de aldeia que é o Epithalamium. Num, é um eu que se dirige a um tu. No outro, o objecto de que se fala é designado por eles, ele ou ela, e o sujeito anónimo que o olha ou o imagina é um se indefinido. E quando o autor fala da «obscenidade» da sua obra, esta noção é ambígua. É certo que o corpo nu do adolescente morto é exposto ao olhar, o que é o verdadeiro sentido etimológico da palavra latina obscenus. Mas não há nada de menos rabelaisiano do que esta poesia em que mesmo as situações mais escabrosas são evocadas nos termos mais decentes.
«Conhecemos hoje Adriano, graças a Marguerite Yourcenar, muito melhor que os leitores de Pessoa. Sabemos que o imperador, com cerca de cinquenta e cinco anos, inconsolável pela morte, em 130, do seu favorito Antínoo, efebo grego de uma grande beleza que se afogara acidentalmente no Nilo, o deificou e impôs o seu culto.»
Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, p. 319.