«Para se curar dessa doença de ser judeu cristão-novo pelo lado do pai e católico pelo lado da mãe, Pessoa tenta regressar às origens da nossa civilização, isto é, à cultura grega - e tornar-se «pagão-novo». Sente-se mesmo uma reencarnação de Juliano Apóstata : «o mesmo alguém» que ele «tem gesto no [seu] braço».
Pessoa considerava, de facto, que o misticismo judeu, nebuloso e confuso, era uma forma de doença comparável à do «morbo cristista», como dizia, e para se curar de ambas as maleitas se lançou na cruzada do que chamava o Neopaganismo.
O que invariavelmente recusou foi não o cristianismo em bloco mas o catolicismo e a sempre por ele abominada Igreja de Roma (como escrevia). Na sua permanente ânsia de recuperar, a todos os níveis, uma saúde perdida, recua, como «cristão gnóstico» que declara ser, até à pureza inicial do Cristianismo. Mas não se fica por aí: recua ainda mais além, até aos fundamentos da cultura grega que, como diz nos textos anexos, são os pilares da nossa civilização europeia.
Na Cultura Grega, procurava essencialmente «o culto da Razão, da Crítica (com justiça se disse que os gregos criaram o Espírito Crítico), ou, como desde Comte se diria, do Livre Exame.» Aos malefícios de nebulosos misticismos e dogmatismos irracionais reinantes opunha o claro rigor do Espírito Crítico, grego.»
Teresa Rita Lopes.
Pessoa por Conhecer - Roteiro para uma expedição. Lisboa: Estampa, 1990, p. 77.