«Tudo isto se articula concertadamente numa constante da obra-vida de Pessoa, como criador de anarquias e de civilização: a cruzada contra o «morbo cristista» (como lhe chamou) desde a adolescência até à morte. A decadência das sociedades - isto é, a agonia da civilização ocidental, cristã - assumiu-a ele como uma doença de que se sentisse contagiado. A morte do pai e do irmãozinho, tuberculosos, a loucura da avó, deviam acordar nele o receio de albergar em si mórbidas propensões, que a sua compleição franzina agravaria. «Sou doente e fraco» assumirá, dramaticamente, pela voz de Campos poeta-decadente que pôs a escrever «Opiário».
Alexander Search, irmão gémeo de Pessoa, que, segundo o seu auto-epitáfio, morreu aos vinte anos, escreveu o testemunho, em verso, dessa «decadência» de que se apresentava como um caso: «Documentos de Decadência Mental» se intitulam mesmo esses escritos. Em prosa, aplicou-se este duplo do jovem Pessoa a escrever, em inglês, sobre o Regicídio, assunto que afinal não chegou a abordar (pelo menos nas páginas constantes no Espólio) porque se ficou pelas considerações sobre «a decadência das sociedades», na atitude apocalíptica de destruir o mundo velho para que o novo pudesse renascer. Essa catástrofe purificadora que Eça, Junqueiro, Patrício apeteceram, também lhe apareceu como a única solução para a doença da civilização cristã.
O Apocalipse desta era foi proclamado em altos gritos por Álvaro de Campos, em «Ultimatum», e proclamada também a vinda eminente de um «Anti-Cristo» que inauguraria o «Quinto Império», que seria neopagão [...]»
Teresa Rita Lopes.
Pessoa por Conhecer - Roteiro para uma expedição. Lisboa: Estampa, 1990, pp. 64-65.