«Embora Pessoa se tenha declarado discípulo de Caeiro e proclamado teorizador do «sensacionismo», o que é facto é que nem por isso deixou de construir, em 1914, um sistema muito diferente e mesmo, de certa maneira, diametralmente oposto, que, segundo diz, experimentou pela primeira vez em 8 de Março, antes de o comentar abundantemente nos seus ensaios. Chuva Oblíqua assemelha-se em certos aspectos aos poemas «paulistas» do período anterior, mas com diferenças notáveis. As impressões, em vez de serem voluntariamente vagas, brumosas, são de uma extrema nitidez. E, sobretudo, as cenas descritas encaixam umas nas outras: cada pormenor surge em duplicado, visto ou sentido ao mesmo tempo de dentro e de fora, tão bem que a sucessão dos planos que se recortam introduz no texto um princípio de clara incoerência, por assim dizer. Sente-se bem, na escolha das anotações de formas ou de cores, a influência do «sensacionismo», mas trata-se de um sensacionismo abstracto, em que as sensações são filtradas sistematicamente pela inteligência. O modelo do «interseccionismo» é evidentemente o cubismo, cuja revelação Pessoa recebera através de Sá-Carneiro.»Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, p. 275.
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